Mundialmente o apetite encolheu. As pessoas estão consumindo menos, motivadas, principalmente, pelas famigeradas canetas emagrecedoras que ganharam espaço no cotidiano de centenas de milhares de cidadãos e cidadãs.
Há o lado bom, dizem os especialistas que indicam tal medicamento. Entre enjoos e absoluta rejeição à alimentação, os usuários realmente diminuem medidas rapidamente. Quilos e mais quilos somem, deixando um rastro de felicidade no ar. É um processo saudável? Não sabemos, isso é tema para a classe médica responder. Ou somente o tempo trará a resposta.
Nosso foco aqui é entender o reflexo das canetinhas no ramo gráfico. Sim, a nossa indústria sente na pele os efeitos da medicação, mesmo sem tomar as agulhadas. Dados mostram que os usuários desses medicamentos passaram a consumir, em média, cerca de 21% menos calorias – fator que reconfigura a cadeia produtiva.
Entram em cena análises sobre o comportamento de compra dos consumidores. Recentemente, pesquisadores da Cornell Universit cruzaram registros de transações de 150 mil domicílios americanos, que usam tais medicamentos, e constataram que as famílias reduziram os gastos com supermercado em média 5,3% nos primeiros seis meses após começar o tratamento. Esse número chega a 8% entre os domicílios de renda mais alta.
Já a consultoria KPMG chegou a um número ainda mais amplo: nos Estados Unidos, cerca de 31% dos usuários de GLP-1 relatam gastar menos com supermercado todo mês. O volume de compra de batatas fritas, biscoitos, refrigerantes, sorvetes, doces e chocolates caiu de forma expressiva. Como resposta, a PepsiCo baixou os preços de Cheetos, Lay’s e Doritos; a General Mills reduziu drasticamente os custos de cerca de dois terços de seus produtos vendidos em supermercados na América do Norte ao longo de 2025.
Sinal dos tempos, é claro. Quem não arrisca, não petisca.
Mesmo assim, a injeção é acelerada. O J.P. Morgan estima que os usuários de GLP-1 nos Estados Unidos passem de cerca de 10 milhões em 2025 para 25 milhões em 2030. O banco também projeta que o setor de alimentos e bebidas perca entre US$ 30 bilhões e US$ 55 bilhões em receita anual até 2034 por conta da mudança de hábito de consumo ligada a esses medicamentos.
Diminui para alguns, aumenta para outros
Enquanto alguns mercados tentam se reinventar, outros comemoram o aumento nas vendas. Em maio de 2025, a Lifeway Foods, importante fornecedora americana de kefir, anunciou um aumento recorde de 37% nas vendas em relação ao ano anterior.
Durante uma teleconferência sobre resultados em outubro de 2025, o vice-presidente executivo da Danone, Juergen Esser, celebrou o crescimento da linha de iogurtes ricos em proteína. Até porque as únicas categorias em que as famílias com usuários de GLP-1 gastaram mais foram iogurte, frutas frescas, barras nutricionais e petiscos de carne.
O reflexo das canetinhas no Brasil
Essa tendência, que se tornou realidade, já desembarcou no mercado brasileiro. Dados de pesquisa do Instituto Locomotiva mostram que 33% dos lares têm ao menos um morador que utiliza ou já utilizou. Ao mesmo tempo em que se espalha, o uso das canetas provoca mudanças concretas no consumo: 95% dos domicílios com usuários reduziram a ingestão de pelo menos uma categoria de alimentos ou bebidas. A queda é mais intensa em itens associados ao consumo por impulso ou conveniência, como doces e snacks (70%), bebidas açucaradas (50%), massas e carboidratos (47%) e bebidas alcoólicas (45%). A pesquisa foi realizada pelo Instituto Locomotiva entre 3 e 9 de fevereiro de 2026, com 1.004 entrevistados em todo o país, por meio de questionário digital de autopreenchimento.
A indústria farmacêutica agradece
Enquanto a embalagem de alimentos perde tração, um novo polo de demanda por papel, papelão e impressão especializada nasce do outro lado da cadeia: a própria caneta emagrecedora precisa ser embalada, rotulada e identificada. Cartuchos dobráveis, bulas, rótulos de rastreabilidade (exigidos por normas como a FMD europeia e a DSCSA americana) e embalagens terciárias para transporte refrigerado formam um mercado em rápida expansão.
O mercado de papel e papelão para embalagem farmacêutica, avaliado em US$ 25 bilhões em 2024, deve alcançar US$ 33,6 bilhões até 2035, segundo a Market Research Future. Já o mercado de embalagem farmacêutica como um todo (incluindo vidro, plástico e componentes de aplicação) é bem mais dinâmico: estimado em US$ 172,6 bilhões em 2025, deve saltar para US$ 405 bilhões em 2031 e US$ 744,6 bilhões em 2035, segundo a Global Market Insights.
Insights finais sobre a reconfiguração de consumo
O efeito sobre a demanda de embalagens cria uma obrigatória reconfiguração estrutural produtiva e de mercado. Nada que assuste a fortaleza que é a indústria gráfica brasileira. Até porque, movimentos como menos volume, formatos em porções menores e tiragens segmentadas já estão em pauta nesse setor há décadas.
No entanto, há claramente uma transição de mix. A questão estratégica para a indústria gráfica não é simplesmente perguntar “quanto de embalagem vamos perder? ”. A pergunta mais relevante é: “que tipos de embalagem e produtos impressos ganharão importância à medida que o consumidor mudar?
Talvez o risco não está apenas em imprimir menos. O risco maior é continuar estruturado para imprimir grandes volumes de produtos cuja demanda estrutural pode perder força.
Perceba que a mesma transformação que reduz embalagens de alimentos atualmente pode aumentar a demanda por embalagens farmacêuticas, cartuchos, rótulos, etiquetas, materiais regulatórios, materiais promocionais, kits de tratamento, comunicação para farmácias e produtos impressos ligados à saúde e bem-estar. A cadeia farmacêutica cria novos SKUs, novos fabricantes, novas apresentações e novas necessidades regulatórias. E a semaglutida e outras fórmulas podem transformar a gráfica em fornecedora da indústria da saúde
Para cada novo produto existe uma cadeia de comunicação impressa: embalagem secundária, rótulo, identificação de lote, informações regulatórias, materiais para distribuição, displays, materiais para ponto de venda, kits, instruções e diferentes apresentações.
Isso abre espaço para uma nova família de impressos: rótulos de suplementos proteicos; embalagens de alimentos funcionais; caixas de vitaminas; embalagens de dermocosméticos; materiais para academias; embalagens de refeições prontas; etiquetas nutricionais; materiais de orientação ao paciente; displays para farmácias; comunicação de ponto de venda; kits de saúde e bem-estar; materiais personalizados para clínicas e programas de acompanhamento.
E por falar em alimentação, surge a possibilidade de imprimir mais embalagens para porções individuais, produtos premium, alimentos ricos em proteína, produtos funcionais. Enfim, mais variedade de SKUs, mais trocas de arte e personalização e novos trabalhos de curta tiragem.
A reinvenção exige uma mudança de posicionamento. A impressão não será necessariamente de maior volume, será de maior valor por trabalho. Comer menos não significa consumir menos embalagem. Significa consumir embalagens diferentes. A compra é motivada pelo propósito.

