A fadiga da tela chegou. A era digital, que defendia um mundo sem papel, virou a favor do ramo gráfico. Como jornalista, acompanho as movimentações do mercado e convido você a olhar além da tela.
Já dá para dizer que o mundo redescobriu o valor do que é físico. Entendeu também que o digital é efêmero. Por outro lado, o impresso é permanente.
Recente estudo da TrueImpact, plataforma de mensuração de impacto social, indicou que o material impresso exige 21% menos esforço cognitivo para ser processado pelo cérebro do que os meios digitais. Nos quesitos tangibilidade e emoção, a pesquisa mostrou que o cérebro processa o material físico e gera uma resposta emocional mais forte do que as telas.
Quando lemos no papel, o processo é linear e contínuo. O cérebro constrói uma representação mental do texto como uma paisagem física, com começo, meio e fim. Quando usamos telas, hiperlinks e notificações quebram constantemente essa sequência.
Simples assim.
Pesquisadores da Universidade de Stavanger, na Noruega, demonstraram que alunos que leram textos longos em papel obtiveram melhor compreensão global do conteúdo do que aqueles que o fizeram em PDF.
Entretanto, a indústria gráfica, com sua extensa experiência, nunca foi de julgar ou tentar eliminar esse ou aquele. Até porque “brigar” com a evolução é dar murro em ponta de faca.
É claro que o uso moderado de dispositivos digitais ajuda. Já o uso excessivo se correlaciona com desempenho mais baixo.
A tela, em doses certas, é aliada. Em excesso, é uma barreira.
O tempo mostrou para o ramo gráfico que a dose certa é a receita que leva ao sucesso. Quem viveu a chegada da impressão digital, em um ramo até então dominado pelo offset, sabe muito bem do que estou falando. Aos poucos, as gráficas entenderam a importância da convergência.
Outro exemplo claro dessa questão da era digital que derrubaria o meio impresso é o segmento editorial. Muitas pessoas e estudos mataram o livro. Só não sabiam que esse calhamaço de papel impresso é imortal.
No Brasil, o varejo de livros fechou 2025 com faturamento superior a R$ 3 bilhões, um crescimento de quase 9%.
Sim, os livros digitais crescem em faturamento nominal, mas representam apenas 9% do total do setor, sendo que os livros físicos respondem por 91% do faturamento editorial brasileiro.
Vale a pena olhar com atenção para o panorama mundial da educação para entender essa relação com o mundo digital.
Países que ocupam o topo do PISA são aqueles que mantêm forte cultura de leitura em papel e materiais didáticos impressos.
O Japão tem uma das maiores taxas de leitura de livros físicos do mundo e suas livrarias funcionam como pontos de cultura.
A Coreia do Sul é outro exemplo que comprova como o investimento em educação transforma uma nação. Em 1960, o país tinha índices de desenvolvimento, analfabetismo e renda semelhantes aos do Brasil. O motor dessa transformação foi um pacto nacional: sem base escolar forte, nenhum sistema de ensino superior produz resultados. Para cada dólar e meio investido no ensino superior, os coreanos investem um dólar na educação básica. E os livros didáticos foram e são o fio condutor desse sistema.
A Finlândia, por sua vez, mantém-se como referência de equidade educacional. Seus alunos obtiveram um dos menores índices de variação de desempenho entre escolas. O segredo? Entre outros fatores, professores altamente qualificados e materiais didáticos impressos de alta qualidade distribuídos de forma equânime. A Finlândia coloca 6% do seu PIB em educação e classifica professores entre as profissões mais respeitadas da sociedade.
A Estônia atingiu 94% de índice de alfabetização há um século e meio, manteve bons resultados no PISA mesmo durante a crise financeira e continua investindo em materiais pedagógicos físicos como parte central de sua estratégia educacional.
A gente pode até não perceber, mas a era do doomscrolling quase acaba com tudo e todos.
Ainda bem que as notificações infinitas e atenção fragmentada fizeram a população reagir: menos tela, mais papel.
É verdade que o mundo digital entregou promessas extraordinárias. Cumpriu algumas, mas a sua velocidade, fragmentação e efemeridade também revelaram o que faltava: a permanência.
Em paralelo, a indústria gráfica foi se adaptando. As embalagens que o e-commerce exige podem e devem ser impressas; os livros que o leitor cansado de telas busca, também são impressos; os materiais didáticos que as pesquisas recomendam para a aprendizagem profunda idem; os produtos personalizados que a impressão sob demanda torna possíveis também.
E por aí vai…
O ramo gráfico brasileiro tem plenas condições de abraçar tudo isso e muito mais.
A missão desse setor vai muito além do faturamento. Esse setor é parte fundamental da educação, cultura e cidadania.
A indústria gráfica é permanente. E não cansa!

