A invisibilidade dos catadores na cadeia circular e o futuro da embalagem

A transição ecológica da indústria de embalagens mobiliza volumes expressivos de capital, pesquisa e desenvolvimento em todo o mundo. As gráficas e convertedores aprimoram formulações de tintas hidrossolúveis, reduzem espessuras de filmes e criam estruturas mono-materiais focadas em facilitar o reaproveitamento pós-consumo. No entanto, existe uma desconexão evidente entre a promessa tecnológica desenhada nas fábricas e o destino concreto das embalagens após o descarte. A atuação dos catadores na cadeia circular constitui o suporte operacional real que impede que milhões de toneladas de impressos terminem esquecidos em depósitos a céu aberto.

A equipe do @agentecontafio participou presencialmente do CirculaPack, evento idealizado pela iniciativa Conecta Verde, que reuniu convertedores, brand owners e especialistas em sustentabilidade para debater os entraves práticos da economia circular. O encontro escancarou um contraste latente: enquanto a indústria discute certificações e sofisticação de materiais, a base humana da triagem brasileira permanece à margem do reconhecimento corporativo e institucional.

O pioneirismo da Coopercaps e o combate ao apagamento social

A abertura do CirculaPack foi conduzida por Telines Basílio do Nascimento, amplamente conhecido como Carioca. Ex-catador de rua e liderança histórica do setor, Telines fundou e preside a Coopercaps (Cooperativa de Coleta Seletiva da Capela do Socorro), organização que completou mais de duas décadas de atuação na zona sul de São Paulo.

A história da cooperativa exemplifica o potencial transformador da profissionalização da coleta. Atualmente, a Coopercaps opera seis unidades produtivas, incluindo as duas Centrais Mecanizadas de Triagem da capital paulista: a Central Carolina Maria de Jesus e a Central Ponte Pequena. A cooperativa reúne mais de 350 cooperados e processa mensalmente milhares de toneladas de materiais recicláveis, desempenhando um papel estratégico no equilíbrio ambiental da maior metrópole da América Latina.

Durante sua intervenção, Telines provocou os participantes ao abordar o apagamento sistemático dos catadores nos planos estratégicos de sustentabilidade das marcas. O líder cooperativista ressaltou que a verdadeira circularidade transcende a pesagem de fardos, pois deve abarcar a transformação socioeconômica de populações vulneráveis. A entidade atua na reinserção de egressos do sistema prisional, pessoas LGBTQIA+, idosos e refugiados. Dessa maneira, a cooperativa consolida a máxima de que não se pode falar em sustentabilidade ambiental enquanto a sociedade descartar vidas humanas.

O mapa dos lixões e os eufemismos regulatórios no Brasil

Para além da dimensão social, os desafios logísticos e jurídicos da gestão de resíduos sólidos urbanos no Brasil ganharam contornos objetivos na palestra ministrada pelo professor e advogado Fabrício Soler, sócio da S2F Partners e autoridade em regulação ambiental. O especialista apresentou dados oficiais consolidados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SINISA), evidenciando a fragilidade da infraestrutura pública brasileira.

Os números revelam um cenário de atraso estrutural grave, mesmo após mais de uma década da promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS):

  • 1.844 municípios ainda destinam seus resíduos para vazadouros a céu aberto (lixões) ou áreas alagadas;
  • 1.044 municípios declaram despejar rejeitos em aterros controlados, termo que Soler identificou como uma roupagem eufemística para lixões, uma vez que tais áreas não possuem impermeabilização adequada de solo, drenagem de gases ou tratamento de chorume;
  • Apenas 1.592 municípios contam com aterros sanitários adequados e licenciados em seus territórios, obrigando a maioria das cidades a operar sem soluções técnicas ambientalmente seguras.

Ademais, Soler demonstrou que a cobertura da coleta seletiva municipal no país permanece insipiente. Apenas 29,2% dos municípios brasileiros (1.415 cidades) possuem algum tipo de serviço formal de coleta seletiva de resíduos sólidos domiciliares. Quando se analisa a população urbana total, apenas 43,1% dos brasileiros contam com essa facilidade. A disparidade regional acentua a crise: a coleta seletiva atinge apenas 6,5% dos municípios da região Norte e 7,8% no Nordeste.

A importância dos catadores na cadeia circular da indústria gráfica

Esse quadro de desamparo operacional transfere para a informalidade e para as cooperativas autônomas a responsabilidade de viabilizar a reciclagem no Brasil. O estudo de composição gravimétrica detalhado por Fabrício Soler indica que a fração orgânica (alimentos e podas) representa 45,5% do lixo domiciliar brasileiro. Logo em seguida, surgem os componentes prioritários da cadeia gráfica e convertedora:

  • Plásticos: correspondem a 15,3% do volume total gerado;
  • Papéis e papelões: respondem por 10,5% do total.

Juntos, os materiais fabricados, impressos e beneficiados pelas convertedoras representam quase 26% de todos os resíduos sólidos urbanos do país. Por conseguinte, se um quarto do lixo nacional consiste em embalagens, rótulos e descartes de papel e polímeros, a ausência de cooperativas organizadas resultaria no colapso imediato das metas de logística reversa.

Sem o recolhimento minucioso executado de sol a sol nas calçadas e centrais de triagem, os investimentos da indústria em ecodesign, rótulos laváveis ou papéis certificados perdem o sentido prático, já que o destino final desses materiais continuaria sendo os 1.844 lixões ativos ou os aterros controlados.

Superar o marketing de prateleira rumo à circularidade autêntica

A presença ativa do Conta-Fio no CirculaPack reforçou a percepção de que o setor gráfico não pode mais se limitar a emitir declarações genéricas de compromisso ESG. A transição para uma economia restaurativa demanda parcerias comerciais formais entre indústrias, convertedores e cooperativas como a Coopercaps.

O investimento privado em maquinários de triagem, prensagem, remuneração digna dos serviços ambientais prestados e fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) representa a única rota plausível para acelerar o fechamento de ciclo das embalagens brasileiras. Em conclusão, reconhecer o protagonismo dos catadores na cadeia circular é o pré-requisito mandatório para que a indústria gráfica brasileira deixe de projetar sustentabilidade apenas em catálogos e passe a edificá-la no chão de fábrica e na sociedade.


Fontes

  • https://www.coopercaps.com.br/
  • Apresentação técnica Cenário Regulatório – Fabrício Soler (S2F Partners), apresentada no evento CirculaPack (idealizado por Conecta Verde)
  • IBGE – Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC 2023)
  • Ministério das Cidades / SINISA – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento